20 de jun de 2016

[Dicas para escrever] Os 6 tipos de conflito na ficção

Já abordei a questão do conflito por alto há muito tempo, hoje quero me aprofundar um pouco mais no tema. Toda ficção precisa de algum tipo de conflito, independente de ser uma aventura épica, um romance adolescente ou uma fábula. O conflito cria tensão e mantém o interesse do leitor. Sem esse elemento, Chapeuzinho Vermelho seria a história de uma menina que passa o dia com a avó e depois volta para casa.

Embora seja possível encontrar diversos estudos sobre o assunto, é amplamente aceito que existem 6 tipos básicos de conflitos na literatura e na ficção em geral. É absolutamente comum que uma narrativa traga mais de um tipo de conflito, normalmente um deles é escolhido pelo autor como principal, mas outros também estão presentes em diferentes níveis...

Pessoa vs. Pessoa


É o tipo mais comum encontrado na ficção. Em histórias de ação e aventura, esse conflito costuma ficar bem explicito. É assim em Jogos Vorazes, onde Katniss tem que derrotar os demais participantes para sobreviver; enquanto os Vingadores precisam deter Loki ou a Terra será conquistada.

Esse tipo de confronto também toma parte no cotidiano, sendo comum em histórias do tipo slice of life e telenovelas: em Mad Men, Pete Campbell tenta tomar o lugar de Don Draper, já o filme Rush mostra a rivalidade pessoal entre dois pilotos de Fórmula 1.

Não é difícil encontrar uma mescla dessas duas linhas narrativas, apresentando um confronto herói/vilão que também é pessoal. O seriado Jessica Jones e a HQ A Piada Mortal são bons exemplos disso.


Pessoa vs. Si Mesma


Também chamado de conflito interno. Para alguns indivíduos, derrotar seus demônios interiores pode ser tão desafiador quanto enfrentar um exército inteiro. São personagens que precisam superar medos e inseguranças antes de alcançarem seus objetivos. É o que acontece com Hinata Hyuuga, em Naruto, e Marcel, no meu livro, Arcanista.

Outro caso é o de personagens que temem serem tomados pelos aspectos negativos de sua personalidade, como Oliver Queen, em Arrow, e Anakin Skywalker nos Episódios II e III de Star Wars.

Nos casos mais extremos, o personagem sofre de dupla personalidade e alterna entre duas facetas opostas, como Nyu/Lucy de Elfen Lied, e Jack/Tyler em Clube da Luta.

Pessoa vs. Sociedade


Aqui não se trata de enfrentar um único indivíduo, mas a lei e a tradição. É o que fazem Romeu & Julieta, ao viverem um amor proibido pelo ódio entre suas famílias. Lutas contra leis injustas também caem nessa categoria, tal qual o filme 12 Anos de Escravidão e outros que abordam o mesmo tema. Também é o caso do livro Papisa Joana, de Donna Woolfolk Cross, sobre a opressão machista promovida pela Igreja.

Esse é um plot recorrente nas distopias, onde um grupo de rebeldes enfrenta um governo opressor numa batalha por direitos e igualdade.

Vale lembrar que, como a sociedade é feita de indivíduos, conflitos Pessoa vs. Pessoa podem emergir. É o exemplo da rivalidade de Katniss contra o presidente Snow em Jogos Vorazes.

Pessoa vs. Destino, Sobrenatural, Deus, etc.


Essa categoria pode ser definida como o conflito contra Forças Extraordinárias. Poderes que, muitas vezes, escapam à compreensão dos personagens. Em A Odisseia, Ulisses tem de superar os obstáculos criados pelos deuses do Olimpo; em Drácula, um grupo de pessoas comuns desafia o poderoso vampiro.

Histórias de invasão alienígena como Arquivo X e Independence Day caem nessa categoria, já que nesses cenários, os extraterrestres são considerados um elemento fora do comum e possuem tecnologia avançadíssima (diferente de Star Wars ou Star Trek, onde é comum encontrar seres de outros planetas e os recursos são semelhantes).

Já a luta contra o destino remete à velha questão do livre-arbítrio. Nesses casos, luta-se para impedir uma profecia ou, dependendo do seu lado, para torná-la realidade. Em Matrix, Neo tem dificuldade para aceitar que ele é o herói profetizado; em Exterminador do Futuro, máquinas tentam matar Sarah Connor antes que ela dê a luz àquele que será o grande líder da humanidade.

Pessoa vs. Natureza


Pode o homem moderno sobreviver ante a natureza nua e crua? Essa é a questão essencial nesse tipo conflito, que surge como uma critica a expansão desenfreada da sociedade. Um dos grandes exemplos desse tipo de conflito é o famoso livro de Daniel Defoe, Robinson Crusoe.

Outras obras investem na humanização de certos aspectos da natureza ou de alguns animais, se aproximando de um conflito Pessoa vs. Pessoa. É o que acontece no icônico Tubarão, e no filme A Sombra e a Escuridão, que mostra um par de leões atacando repetidamente os construtores de uma ferrovia.

Porém, o maior exemplo desse confronto direto é o clássico Moby Dick, onde o Capitão Ahab leva seu ódio contra uma baleia às últimas consequências.


Pessoa vs. Tecnologia


Se me perguntar, acredito que o medo da tecnologia surgiu durante a Revolução Industrial, com o advento de máquinas capazes de substituir dezenas de funcionários. Mas foi com Frankenstein, que a autora Mary Shelley introduziu a ideia de que o homem pudesse criar algo que fugisse a seu controle, chegando até mesmo ao ponto de declarar guerra contra a humanidade, como em Exterminador do Futuro e Matrix.

De fato, a ideia de uma sociedade de máquinas inteligentes é um tema recorrente na ficção cientifica, tal como os Borgs de Star Trek, os Cylons de Battlestar Galactica ou os Geth de Mass Effect.

Mudando a chave para o nosso mundo atual, com o crescimento da informatização, cresce o medo de um cyber ataque massivo. Esse é o plot de Duro de Matar 4.0. Outro temor é o de que todos os sistemas sejam tomados por uma força hostil, assim como no filme Controle Absoluto.

5 comentários:

  1. Que excelente artigo, Joe! Tô mesmo precisando de dicas de roteiro. Tenho me sentido meio travado ultimamente, e quero poder dar seguimento ao Gil Astro. Mas acabei criando certas armadilhas pra mim mesmo que estou tendo dificuldade para resolver. Adorei o texto! Parabéns!

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    1. Valeu, Everton :D

      Cara, tenho o maior respeito por quem faz tiras, acho que eu não conseguiria.

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  2. Obrigado, cara! É um bom exercício, tentar ser conciso o suficiente para passar a mensagem que quero numa única página.

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  3. Muito bom o artigo. Serve de desafio escrever seis contos com seis conflitos diferentes!

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