14 de dez de 2015

[Conto] Joanna

Acho que eu tinha dez, talvez onze anos, quando conheci Joanna. Era véspera de Natal, como hoje. Eu passeava pelo centro da cidade com meus pais e minha irmã. Em algum momento me afastei um pouco… E foi quando a vi. Parecia ser mais velha um ano ou dois, tinha o rosto de uma boneca e o sorriso de um anjo. Brincamos, andamos de mãos dadas e conversamos. Eu nunca tinha conversado com uma menina até aquele dia.

— Você me ama, Breno? — meu coração bateu forte.

— P-por que essa pergunta?

— Porque eu amo você, mas só vou te beijar se disser que me ama também.

— A-acho que amo… não sei… é a primeira vez que me sinto assim…


Ela sorriu e tocou seus lábios contra os meus. Não lembro direito o que aconteceu depois daquele beijo. Nunca mais vi Joanna de novo, mas não houve um dia em que deixasse de pensar nela.

Isso foi há muito tempo. Quando as luzes de Natal eram brilhantes e os enfeites encantavam a todos. Hoje as coisas mudaram. As luzes parecem apagadas e os enfeites sem vida. Em lugar dos cânticos natalinos, as buzinas dos automóveis presos em um trânsito complicado. No rádio do carro os programas passam mais comerciais do que músicas. No banco do passageiro, minha irmã Clarice está aborrecida e no banco de trás, meus sobrinhos Renan e Renato gritam sem parar.

O Natal desse ano estava me deixando com uma dor de cabeça terrível!

— Já chegamos no shopping, tio Breno? — os meninos não paravam nem por um instante. — Eu quero ver o Papai Noel, mãe!

Confesso que me senti impaciente com a gritaria dos gêmeos, mesmo assim não quis estragar a festa de duas crianças por causa de alguma irritação de adulto. Clarice não pensou dessa maneira.

— Chega de bagunça! Ou vocês ficam quietos ou vamos voltar pra casa e ninguém vai ver o Papai Noel coisa nenhuma!

A bronca fez os garotos se encolherem no banco.

— Calma, Clarice, não precisa ficar tão nervosa. É Natal, deixa os meninos se divertirem.

— Tem que por limites, senão vão achar que podem tudo! — ela me respondeu. — Você é muito mole com crianças, Breno. Nem quero imaginar como vai ser quando tiver seus filhos, se bem que nem namorada você arruma.

— Estou esperando a pessoa certa — Clarice deve ter pensado que aquilo era uma desculpa, mas era a pura verdade.

Eu esperava por Joanna. Às vezes me pegava olhando a rua à sua procura, imaginando como seria sua aparência e se poderia reconhecê-la.

— Foi o que eu fiz: tentei esperar a pessoa certa, e veja o que consegui.

Sei que não era culpa da minha irmã andar tão irritadiça. Ela ainda não tinha se acostumado com sua nova realidade de mãe divorciada. Por essa razão, eu vinha sendo mais paciente. E já havia barulho demais para começar uma discussão.

— Não vi nenhum Papai Noel esse ano — mudei de assunto. — Nem nas ruas, nem nas lojas. Estranho.

— Estranho por quê? As lojas devem estar pagando pouco.

Depois de duas horas praticamente parados no trânsito, finalmente chegamos ao shopping. O Renan e o Renato voltaram a se empolgar.

— Cadê o Papai Noel? Vamos ver o Papai Noel!

— Vamos lá primeiro, Breno. Esses meninos não vão dar sossego enquanto não fizermos isso.

Dentro do shopping encontramos um mar de gente. Parecia que meio mundo havia deixado suas compras de Natal para a última hora. Como nas ruas, a decoração era pálida e sem graça. No centro do shopping, nos deparamos com dúzias de famílias esperando pelo Papai Noel, que deveria estar ali, entretendo as crianças, porém a cadeira do bom velhinho permanecia vazia. Que decepção foi para os gêmeos! As pessoas começaram a se impacientar, levantando a voz e algumas crianças choraram.

— Isso é um pesadelo, Clarice — disse baixinho para ela. — Lembra quando a gente passava a véspera de Natal brincando e vendo os desenhos? E o pai sempre chegava mais cedo do trabalho? Aquilo sim era Natal!

— Ah, Breno! Éramos crianças naquela época. Agora somos adultos. O Natal é só mais um dia.

— Então eu sou o único que ainda acredita no Espírito de Natal?

— Deixa isso pra lá. Vou levar os meninos pra fazer compras enquanto o bendito Papai Noel não chega.

— Eu vou esperar no carro. Minha cabeça está me matando! Qualquer coisa, dá um toque no meu celular.

Não conseguia mais ficar ali. Cheguei no elevador com a cabeça explodindo. Fiquei satisfeito de mais ninguém ter entrado. Recostei-me no canto de olhos fechados para ver se a dor passava. Não sei a razão, mas de repente pensei em Joanna. Onde ela estaria agora? Estaria casada e com filhos? Seu Natal estaria sendo tão ruim quanto o meu?

Acho que cochilei encostado no fundo do elevador, porque me surpreendi com o barulho das portas abrindo. A surpresa foi ainda maior quando, ao invés do estacionamento, vi entrar a luz do sol. Uma brisa soprou em meu rosto e senti cheiro de flores.

Sem explicação, encontrei-me andando por um caminho de pedras cortadas que passava pelo meio de um grande campo verde seguindo na direção de um morro não muito longe dali. O som do vento agitando a grama era reconfortante. Vi um céu azul bonito, com poucas nuvens. Um clima agradável e colorido.

Uma voz suave chegou aos meus ouvidos. Não sei qual era o idioma, porém a música me pareceu muito bonita, apesar de triste. Tudo aquilo não podia ser verdade. Devia ser um sonho. Um sonho com ela.

Eu a vi. Sentada em um banco de madeira à sombra de uma árvore florida. Não era mais uma menina e sim uma mulher, mas ainda tinha as mesmas feições angelicais e a mesma voz doce. Minha linda musa, ainda mais linda emoldurada por aquele cenário… Joanna.

— Oi, Breno! Por onde tem andado?

Sempre pensei em como seria esse reencontro, em como fazê-lo especial. O que dizer, como me portar. Agora que o momento finalmente havia chegado, eu não tinha a menor ideia de como agir.

— P-por aí — respondi. — E você?

— Assuntos de família.

— Isso está mesmo acontecendo?

— Claro que está. Achei que gostaria de me ver.

— Há anos que eu sonho com você, Joanna. Nem imagina como te ver me deixa feliz!

— Acha que coisas boas não podem ser verdade?

— Eu… senti saudade!

Seu sorriso iluminou ainda mais o campo. Ela fez um sinal para que eu me sentasse ao seu lado no banco. A proximidade fez meu peito disparar.

— Então, Breno… está casado?

— Eu?! Nem namorada tenho.

— Acho que morreria de ciúmes se você tivesse outra.

Ela ficou sem jeito. Os cabelos caíram na frente do rosto como uma menina atrapalhada. Quase sem perceber ajeitei suas mechas. Sua respiração acelerou. Toquei a pele macia de seu rosto e a lembrança daquele beijo inocente tomou conta de mim.

Quando nossos lábios se uniram de novo foi como se tudo a minha volta desaparecesse. Só o que importava era estar ali. Nem sei quanto tempo nos beijamos. Depois, ela se deitou com a cabeça no meu colo e afaguei seus cabelos. Era assim que a vida deveria ser: só ela e eu, mais ninguém.

— Esse lugar é tão bonito, Joanna!

— Como era onde você estava?

— Cinza. Era um lugar cinza e todos corriam tanto. Era véspera de Natal, mas ninguém se importava, só queriam saber de correr.

— Na primeira vez em que nos vimos, você estava muito empolgado com o Natal.

— O mundo mudou. Está diferente… feio. Ou talvez o erro seja meu em não perceber que deixei de ser criança há muito tempo.

— Por que diz isso, Breno?

— Acho que estou velho demais pra sentir o Espírito de Natal ou para acreditar em Papai Noel. Não são coisas de adulto.

— Está dizendo bobagens, meu amor. Não se sinta culpado por ainda ter fé. É o que mais gosto em você.

— Se sou o único que acredita, de que adianta? O que posso fazer?

— Pode mostrar aos outros como se sente. Ás vezes, as pessoas precisam que alguém as lembre como é ter esperança. Precisam de um símbolo que resgate o que elas têm de melhor.

Joanna ficou melancólica.

— Minha família tem cumprido essa tarefa por muitas gerações.

— Nunca me falou sobre sua família.

Ela se levantou do meu colo com um ar distante.

— Há uma cabana naquele morro, onde eu vivia com meus pais.

— Vivia? Então eles…?

— Meu pai… — continuou ela. — Era um bom homem, que foi um símbolo de esperança e alegria por muitos e muitos anos. E minha mãe cuidou dele durante todo esse tempo.

— Sinto muito, Joanna.

— Há uma razão para eu ter te trazido aqui hoje, Breno — ela ficou séria. — Preciso continuar o legado da minha família. Preciso de um herdeiro para seguir com a nossa missão. E não quero ter um filho de nenhum outro homem.

O que poderia dizer a ela?

— Joanna, eu amo você, mas só vou te beijar se disser que me ama.

— E se eu disser que é a primeira vez que me sinto assim?

Voltamos a nos beijar. Ela me conduziu para a grama e fizemos amor na relva.

Sou capaz de jurar que o tempo parou. Se aquilo era um sonho, eu não queria acordar. Ficamos abraçados sob as nuvens, minha musa aninhada em meu peito.

— Aconteceu, Breno! Sei que é cedo, mas acredite, posso sentir uma nova vida dentro de mim!

— Então vou ser pai?

— Pai de um menino, ele vai se chamar Nicolaus.

— Eu quero ficar aqui com você, Joanna. Quero estar ao seu lado e ver nosso filho crescer — por alguma razão, tive o pressentimento de que esse desejo não iria se realizar.

— Nada me deixaria mais feliz, meu amor, só que pertencemos a mundos diferentes.

Eu queria ficar, mas não poderia. Não com minha irmã precisando de mim. Joanna nada disse. Senti um impulso de perguntar se ela viria comigo, porém não o fiz porque sabia qual seria a resposta.

— Nunca temos tempo para nós — foi o que eu disse.

— O que importa não é quanto tempo temos, mas como o vivemos.

— Vou poder ver o nosso filho?

— Você o verá, Breno — e brincou. — Lembre-se de sorrir para ele!

— Ainda vamos nos encontrar de novo?

— É claro que sim, meu amor! Em algum outro dia… não tenha… receios quanto…

A medida que ela falava, uma nevoa começou a cobrir tudo. Minha visão foi ficando embaçada e Joanna sumiu aos poucos.

Quando abri os olhos me vi sentado no banco do meu carro, dentro do estacionamento do shopping. Meu celular tocava. Parecia que eu havia dormido por horas, mas quando olhei a tela do aparelho vi que só alguns minutos tinham se passado. Atendi meio sonolento e ouvi a voz de Clarice.

— O Papai Noel chegou. Os meninos estão super animados! Por que não vem para cá?

Me senti tão bem! Enquanto andava pelos corredores do shopping notei que algo havia mudado. A decoração de Natal estava bonita agora, brilhante, viva! As pessoas não lutavam por espaço, ao contrário. Traziam o semblante leve, sorriam e se cumprimentavam.

Renan e Renato eram pura alegria enquanto Clarice tirava fotos deles com o bom velhinho. Nunca vi um Papai Noel tão sorridente. Era um senhor de mais idade com uma bela barba branca natural. Podia-se até mesmo dizer que era o verdadeiro Papai Noel.

— Olha como eles ficaram felizes — disse minha irmã.

— Você também está parecendo mais feliz.

— Vai ver o seu Espírito de Natal me pegou.

Lembrei do que Joanna disse, sobre mostrar às pessoas como me sentia.

— Clarice, por que você não leva os meninos para jantar na minha casa hoje? A gente pode chamar o pai e a mãe também. Vai ser um Natal à moda antiga, que tal?

— Eu adoraria.

Trocamos um abraço apertado. Percebi que o Papai Noel olhava em minha direção e acenava a cabeça, sorrindo. Devolvi o sorriso.

Quanto a Joanna, nem vou tentar entender o que aconteceu. Onde quer que ela esteja agora, espero que seu Natal seja tão feliz quanto meu. Eu sei que vamos nos encontrar de novo… em breve.


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