31 de out de 2016

[Conto] Amor Ardente

“Os olhos de Bernardo queimaram”.

Esta era a linha que mais perturbava o bispo Damião. Vira Bernardo crescer, acompanhou seus estudos rumo ao ministério de perto e amava-o como um pai amava um filho. Leu a carta novamente, as palavras apertaram seu coração. “Ele ficou cego”.

Mesmo detestando viajar, o bispo de rosto marcado dispôs-se a quase um dia inteiro sacolejando numa carroça aberta, alcançando seu destino no final da tarde. Santana limitava-se a uma ou duas ruas de casas escassas e um mínimo de comércio. Muitos habitantes da vila viviam, na realidade, em fazendas próximas.

A carroça parou diante da diminuta igreja, onde uma beata idosa varria a entrada. A senhora apressou-se em beijar a mão do bispo e pedir uma benção. Foi ainda mais rápida em despejar uma enxurrada de boatos a respeito de Bernardo e daquela mulher, acusando-os de terem recebido uma punição divina.

Sem perder tempo, Damião bateu na porta do quarto simples no interior da igreja, deparando-se com Bernardo acamado. À exceção da faixa sobre os olhos e do aspecto abatido, seu corpo não mostrava sinais de mácula.

Como o fogo teria queimado apenas os olhos?

— Não precisava ter feito essa viagem, senhor — disse Bernardo.

— Como sabe que sou eu?

— Ouvi sua voz. Perder a visão aguçou meus outros sentidos.

— Me dói vê-lo nessas condições. Quando tiver disposição, quero saber a verdade sobre o que aconteceu. Não imagina as histórias absurdas que ouvi.

— A melhor hora é agora, porque suspeito que ela virá por mim hoje à noite. Mas saiba que a verdade vai soar mais absurda que os boatos e é por essa razão que peço que escute sem interromper…


“…Como o senhor deve recordar, a diocese acreditava que eu era jovem demais para o trabalho numa igreja grande e enviaram-me para ser assistente do padre Nestor aqui em Santana, esperando que eu ganhasse experiência lidando com um cotidiano mais simples.

Quando cheguei, o lugar me parecia o fim do mundo. Certamente, um padre jovem como eu não seria bem aceito sem a intervenção de um veterano como Nestor. Aquele homem tinha um coração de ouro. Quem imaginaria que uma doença fulminante o levaria?

No começo, o considerei muito permissivo com certas práticas e crendices supersticiosas:

— As velhas lendas correm soltas em Santana — disse-me um dia.

Nestor tinha razão, como eu próprio comprovei.

Mas não vou alongar-me falando sobre vultos que vi no cemitério ou sobre objetos que mudam de lugar quando ninguém está olhando, aqui mesmo, dentro da igreja. Como meu tempo é curto, vou direto à parte mais importante e fascinante dessa história: Manuela.

Nunca me esquecerei da primeira vez que a vi. Aconteceu na minha chegada à vila. Alguns moradores me receberam com uma pequena celebração e Manuela estava lá, com sua cascata de cabelos negros e seus olhos vivos e penetrantes. Ela conversava mais com os olhos que com palavras.

Sei que está pensando que caí em tentação, mas Manuela não era uma tentação. Era um anjo. Casou-se muito jovem com um fazendeiro velho e rico, ficando viúva pouco depois.

Sua reputação é culpa dos filhos do fazendeiro que, vendo-a ficar com a herança do falecido, fazem de tudo para prejudica-la. Juro pelo que é sagrado que jamais a vi praticar mal algum, ao contrário. Realizava doações generosas à igreja e nunca dizia “não” a uma pessoa necessitada.

Quando se confessava, revelava estar sofrendo de culpa devido a um amor proibido. Um amor que ficava mais forte a cada dia. A essa altura, eu também a amava, mesmo sabendo que não deveria. Uma tarde, um garoto da fazenda veio de sua parte pedindo que eu fosse abençoar uma criada no meio de um trabalho de parto difícil. Todos no casarão passaram a noite orando.

Felizmente tudo terminou bem quando já era madrugada. Manuela e eu ficamos sozinhos conversando na varanda e foi quando, de alguma forma, meus lábios encontraram o caminho para os dela.

Nesse momento, entendi que aquilo não podia ser pecado, porque os pecados são feios e o que havia entre nós era bonito. Mas como Nestor dizia, as velhas lendas correm soltas em Santana.

Manuela caiu doente, acometida de uma febre terrível como nunca vi. Sobrenatural até. Médicos, remédios, orações… Foi tudo em vão. A temperatura dela aumentava sem parar dia após dia.

Eu passava a maior parte do tempo no casarão, temendo o pior… E o pior veio. Mas não como eu esperava.

Aconteceu semanas atrás, numa sexta-feira de Lua cheia. Eu estava de vigília junto ao leito de Manuela. À meia-noite, a febre agravou além do normal. Decidi dar a extrema unção, mas quando fui desenhar o sinal da cruz com óleo em sua testa, meus dedos ficaram em brasa e o óleo evaporou. As roupas de Manuela e os lençóis entraram em combustão.

Senti um repelão vindo de lugar nenhum, uma força etérea que me jogou no chão.

As chamas e a fumaça tomaram conta do quarto num instante. Ouvi a cama de Manuela desabar e gritei seu nome. A resposta veio na forma de um som monstruoso. No meio da fumaça densa, surgiu um vulto que não era humano.
Uma silhueta equina foi a última coisa que vi antes das flamas na cabeça daquele ser saltarem em meus olhos…”

— … e essa é nossa desafortunada história.

Damião deu-se conta de que prendia a respiração. Pela janela, viu a Lua cheia subindo no céu noturno.

— Bernardo…

— Não diga nada. Sei que o senhor não acredita, mas não importa. Eu só queria ter a chance de contar a verdade antes que ela viesse me buscar. Apesar de tudo, teremos um final feliz porque ficaremos juntos.

O bispo saiu do quarto cansado da viagem e mentalmente esgotado. Persignou-se diante do altar, meditando sobre tudo aquilo. A beata veio encontra-lo:

— Como ele está?

— Mal. Além do mais, contou uma história que…

Um estrondo veio do quarto, sacudindo a igreja. Damião correu o mais rápido que a idade permitia.

À porta, ouviu o som de cascos. Ao adentrar, viu que a parede da janela desabara e Bernardo desaparecera sem deixar rastros, exceto por marcas flamejantes em forma de casco, formando uma trilha que mergulhava na noite.

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