O grande espelho na porta do guarda-roupa mostrava a imagem de César em sua camisa branca. Desde seu divórcio habituara-se a dedicar muito mais tempo ao ato de vestir-se. Apanhou a gravata preta ciente do quanto ficava bem de terno. Contudo, os olhares femininos não atrairiam sua atenção nessa noite, acreditava que flertar em um velório não era de bom tom, principalmente sendo este o velório de seu velho mestre, Eusébio Duarte.
Orfão de pai, César colecionara figuras paternas ao longo da vida. Porém, Eusébio era o único a quem ele realmente desejara chamar de pai. Se conheceram em uma classe da faculdade de história. Duarte era então um professor veterano, conhecido por tirar o melhor de seus alunos, era um homem dotado de um poderoso raciocínio e de uma memória infalível. Parecia capaz de traçar uma linha de tempo de toda a história mundial sem a necessidade de consultar nenhum livro e sem omitir nenhum detalhe, por mais obscuro ou irrelevante que fosse. E em César, o educador havia encontrado mais do que um aluno dedicado, encontrara um discípulo obstinado! Compartilhavam as mesmas idéias sobre todas as guerras terem sido disputadas por razões políticas, sobre os verdadeiros heróis serem os anônimos, e que os grandes líderes eram sempre movidos por interesses pessoais. Se não concordavam em tudo, era porque o aluno nunca entendeu a paixão de seu professor por certas áreas do conhecimento humano.





